Na colônia penal – Kafka

Eu li o “Na colônia penal” já faz alguns anos. Na época passava por um momento de absurdo transtorno de ansiedade. Um caos indesejado se instalou em minha vida e não tinha a mínima pressa de sair dali. Pressão alta, insônia, irritabilidade… foi aparecendo tanta coisa que pela primeira vez na vida resolvi experimentar fazer terapia psicanalítica. Organizar e tentar entender um pouco esse processo dentro da cabeça.

Foi bom. Falar abertamente sobre tudo sem me preocupar com julgamentos ajudou a olhar a coisa de uma distância um pouco mais segura. O que no começo era uma conversa sobre a causa em si, depois foi virando uma reflexão sobre os caminhos da mente e a relação que se constrói diante da causa e formas de manifestar essas emoções. O fato é que em uma das sessões a gente discutia sobre a arte como ferramenta de transpor sentimentos, inquietações e sensações. Citei um dos meus livros favoritos, “A Metamorfose” de Franz Kafka. E nessa meu psicólogo mandou:

- Você já leu “Na colônia penal”?

Em se tratando de mexer com angústias e mergulhar na camada mais obscura da alma humana, era tão ou mais impactante do que a trajetória inglória de Gregor Samsa depois de acordar de seus sonhos intranquilos.

Eu não conhecia.

Na mesma hora ele se levantou, foi até a estante, fuçou no meio de vários títulos com a temática de psicanálise e puxou uma edição com textos do Kafka, entre eles, “Na colônia penal”.

- Aqui. Pode levar.

A edição era bem antiga, tinha até um postal entre as páginas com uma ilustração à bico de pena representando o escritor tcheco. Meu lado colecionador se coçou inteiro para “esquecer” de devolver, eu nem era um paciente muito assíduo, desmarcava direto e aparecia bem de vez em quando. Acho que o próprio terapeuta sabia dessa possibilidade e, honestamente, penso que para ele era bem mais importante eu ler o livro do que ter a certeza que a edição voltaria a ocupar lugar na estante. A edição voltou, só para constar.

No mesmo dia devorei o texto. Era tudo aquilo e mais um pouco. Lembro o quanto me pareceu atual. Quando li já estávamos em um momento em que grupos pediam volta do regime militar, torturadores eram homenageados, uma banalização do mal com apego à requintes de crueldade em nome da “justiça” começava a virar senso comum… Parecia que tinha sido escrito naquele mês e não em 1914. Penso que Jung falaria em sincronicidade.

Não é algo que faço com frequência, mas Kafka me desperta um interesse em conhecer outras traduções. O trabalho do Modesto Carone para a Cia das Letras sempre foi muito elogiado. Na mesma semana comprei o ebook e mergulhei mais uma vez no texto. Nessa segunda leitura procurei apreciar melhor o jogo de palavras e a forma como Kafka leva o leitor para um lugar de desconforto sem necessariamente mostrar que ele está lá. Virou uma das minhas leituras favoritas.

Agora, depois de anos dessa experiência, a Antofágica resolve fazer uma edição de “Na colônia penal” com ilustrações de Lourenço Mutarelli. Não dá para abrir mão do privilégio de testemunhar um encontro desses. Acabo de terminar minha terceira leitura dessa obra e, consequentemente, a terceira tradução do texto. Essa ficou por conta de Petê Rissati, que fez um ótimo trabalho. A edição está impecável, tem ainda uns textos de apoio de Lenio Streck, Celeste Ribeiro Sousa e Márcio Seligmann-Silva.

Precisei voltar à terapia faz pouco mais de um ano. Outra cidade, outro psicólogo, outro caos… Ajudou, mas não teve livro dessa vez. Que pena.